sábado, 26 de setembro de 2009

Largo do Boticário - RJ

PERPLEXIDADE/INDIGNAÇÃO




Morando fora há algum tempo, voltei como turista no feriadão de 15 de novembro para matar a saudade da cidade (ainda e sempre) maravilhosa. Driblando o aguaceiro e o frio desta primavera, fomos ao zoológico, ao "Museu dos Ossos", que é como minha filha chama o Museu Nacional, e quase conseguimos ir ao Cristo, mas a chuva, que já tinha sido por demais condescendente, impediu nossa subida ao ameaçar desabar com toda força enquanto ainda estávamos na Rua Cosme Velho, ao lado do Largo do Boticário, onde nos refugiamos, buscando ecos do tempo em que moramos em Laranjeiras e muitas vezes íamos até lá pra ouvir o murmúrio do carioca, ainda Rio naquele trecho.

Deparamo-nos com uma faixa em uma das casas - Confederação dos Tamoios, etc - anunciando uma ocupação com apoio do movimento dos sem teto.

Sem entender o que se passava, fomos aos poucos nos dando conta da terrível situação deste lugar, patrimônio de nossa cidade, que abrigou o atelier de Augusto Rodrigues por tantos anos, reduto de artistas e intelectuais atuantes em tempos nem tão antigos assim.

Ficamos sabendo que a maioria das casas pertence a uma única família que, sem recursos após a morte da "velha", está deixando o tempo e o descaso dar cabo da herança, que, se não passar por urgente restauro, será em breve uma ruína, já que a natureza parece estar tomando de volta o que um dia lhe foi roubado, brotando em todas as frestas e abrindo caminho com poderosas raízes por todos os lados, deixando entrar a água da chuva que faz com que aqueles belos azulejos brancos e azuis comecem a se soltar e serem postos à venda juntamente com revistas velhas e outros tesouros do passado. Há pessoas por ali passando necessidade...

Nossa cidade já conhece os inúmeros benefícios de investir no resgate de nossa memória, de nossa História e cultura. Casarões de Botafogo, Flamengo,Lapa, Centro e tantos outros bairros foram restaurados, devolvidos à população, atraindo mais recursos, turistas, moradores e vizinhos que passam a freqüentar restaurantes charmosos, livrarias e centros culturais que dão vida nova aos bairros então revitalizados.

Como Carioca de corpo e alma deixo aqui um alerta, um pedido de socorro, para que alguém faça alguma coisa antes que aquelas casas desabem. Imagino que sejam tombadas pelo Patrimônio Histórico, se não são, deveriam imediatamente passar a ser. Onde estão os arquitetos e técnicos do IPHAN? O Largo do Boticário é um patrimônio da Cidade do Rio de Janeiro, dos Cariocas, do Brasil e dos milhares de turistas que certamente têm em seus álbuns de viagens este recanto precioso do Cosme Velho e do Brasil.


16/11/2006

Minhas Memórias e o Bob's

Há alguns anos, o Bob's fez uma promoção pedindo aos clientes que contassem suas experiências relacionadas à lanchonete que, então, aniversariava. Escrevi este texto e mandei. Fui selecionada. O "prêmio" foi a participação num vídeo institucional (que nunca vi) e um sundae (rsrsrs) de morango que degustei durante a filmagem. Disseram que haveria um prêmio especial, que nunca chegou! Mas foi divertido.


As lembranças mais gostosas que guardo dos anos 60, eram os passeios que fazíamos nas noites de verão, meu pai, minha mãe e eu, pelas ruas de Ipanema. Morávamos na Farme de Amoedo e algumas vezes íamos até o Bob's da Garcia D'Ávila pela praia, onde o cheiro da maresia se misturava ao cheiro da Dama da Noite, uma flor de perfume muito intenso e comum no bairro. São aromas impregnados em minha memória. Era uma boa caminhada para mim, com meus 5, 6 anos e quando a gente ia se aproximando, vinha no ar um cheiro delicioso que imediatamente a gente associava ao sanduíche de pão dourado e queijo derretido, que fazia fios imensos a cada mordida. A gente ria muito, enquanto se embaraçava e se deliciava. Meu pai tomava sorvete de pistache ou suco de laranja e eu, um sundae. Lembro da calda com morangos inteiros e do barulhinho "tloc" que fazia quando a gente mordia.

Aqueles passeios eram emocionantes e esperados com muita ansiedade.

Adolescente, algumas vezes, depois da aula de inglês no Oxford, gostava de ir ouvir as novidades na Garage, uma loja de discos da Garcia, ver as vitrines da Bibba e da Drugstore, ícones de uma Ipanema da década de 70. Na volta, a paradinha no Bob's era inevitável, onde gostava de tomar um Hot Fudge ou uma Vaca Preta.

Mudei de Ipanema para a fronteira entre Copacabana e Ipanema, no Corte do Cantagalo, mas não conseguia me ambientar no novo bairro. Até que um dia, um namorado me levou ao Bob's de Copa, que eu nem sabia que existia. Copacabana então entrou no mapa da minha vida.

Meus horizontes se ampliaram e já quase adulta, costumava ir ao Teatro João Caetano na Praça Tiradentes pra assistir ao Seis e Meia e na volta, era fundamental uma passada no Bob's da Senador Dantas pra saborear um Big Bob com refrigerante cheio de bloquinhos de gelo boiando no copo.

Em meados dos anos 80 o Edifício Avenida Central me proporcionava alguns prazeres: o sebo, a loja de modelismo e o Bob's, onde eu comia queijo com banana e bebia refresco de maracujá.

No final dos anos 90, minha filha, com 4 anos descobriu as delícias de uma casquinha de baunilha.

Hoje, em 2002, tomando um Ovomaltine, mergulho numa viagem ao passado, revivendo prazeres, sensações e emoções, instigada por este convite do Bob's. Crescemos juntos, a cidade, o Bob's e eu.

O Tempo e as Coisas

Nunca tive um relógio 100% confiável.

Às vezes, ele me diz que são 10 horas, mas na verdade já é quase meio dia! Outras vezes estando certa de que já são 6 da manhã me surpreendo. Ainda posso dormir quase duas horas.

Talvez  porque na minha casa o tempo seja outro, o da preguiça dos gatos ou da pressa dos beija-flores.

O relógio de pulso para. Passa um, dois dias inerte, imóvel e de repente, sem ter motivo aparente recomeça sua marcha por meses a fio. Até que, como se para me puxar o tapete e lembrar que tudo é efêmero, estanca. Inútil artefato no braço.

E as coisas, as coisas mesmo, os objetos, parecem ter vida própria e um ótimo senso de humor. Escondem-se. Passam anos assim, adormecidos. Mas quando preciso deles, vou lá, direto naquela gaveta, dentro daquele livro e pronto. Ele lá não está. E fico eu, revirando lembranças, tentando resgatar o último momento, mas, peraí, não foi aqui que guardei? Mas eu tinha certeza de que estava ali... E anos depois (ou dias, semanas) ele se mostra, parecendo que até com sorriso sarcástico, "to aqui", "estive aqui todo esse tempo”!

Nossa, olho o relógio, parece que foi há tanto tempo. Nossa, foi ainda ontem que olhei e não vi e lá se vai ele novamente, ser agulha no palheiro.



20/09/09
Desde pequena convivi com ferramentas e pessoas que usavam as mãos para criar e consertar coisas. Em minha casa sempre houve uma oficina com bancada, painéis e maletas de ferramentas de todos os tipos.


Minha mãe costurava, bordava, tecia, cozinhava. Com 5 anos aprendi a bordar, seguindo o risco de um ratinho desenhado por ela. Recortávamos flores dos anúncios do National Geographic Magazine e colávamos nos azulejos da cozinha; fazíamos biscoitinhos de nata e balas de açúcar no mármore da pia.

Muito cedo montei "minha" primeira caixinha de ferramentas com os pequenos martelos e alicates de meu pai, em uma caixa feita por ele. Ela também serviu para guardar roupinhas de boneca e material de pintura. Hoje guarda ferramentas.

Aquela oficina num socavão de escada era um pequeno estaleiro de onde saíam veleiros imponentes e também a estante de meus primeiros livros, o balanço com laterais de coelho no qual eu passava horas balançando no quintal. Meu primeiro estojo com tampa de correr também saiu de lá, além de uma magnífica caixa com subdivisões onde minha mãe professora guardava contas coloridas e materiais de texturas e pesos diferentes para usar com seus alunos. Alí também meu pai consertava coisas - liquidificador, tomadas, ferro elétrico.

Eu adorava mexer em tudo aquilo. Aos poucos fui me apoderando de miudezas, quinquilharias e objetos, que guardei por toda a vida, pensando que um dia eles serviriam pra alguma coisa.

Nos mudamos e a oficina teve momentos de decadência e glória. Um belo dia, me vi restaurando modelos de barcos, aprendendo as técnicas de construção. Por onze anos fui oficialmente modelista naval. (Posso dizer que sou dessas pessoas que sabe com quantos paus se faz uma canoa!).

Nesse percurso fui dominando os modos de trabalhar madeira, de usar ferramentas e máquinas e comecei a fazer móveis e objetos. Dei aulas de marcenaria para crianças e jovens e criei o Projeto Oficinas de Brinquedos e Engenhocas de Sucata, que já aconteceu em muitos lugares. O desejo de pensar as formas e os objetos me levou a estudar no Parque Lage. Aqueles "cacarecos" começaram a ganhar outro rumo. Alguns deles estão aqui.

Texto da exposição Objetos - Trilogia

(para ver os objetos visite a exposição em http://www.christiannerothier.com/objetostrilogia/index.htm )

Fragmentos de Memória

Aos 8, 9 anos, mais ou menos, eu já tinha algumas coleções. Maços de cigarros, caixas de fósforos. Chaveiros, moedas, selos. Fichas de ônibus.

Aos 10 ganhei de minha avó uma caixa linda cheia de vidrinhos compridos com miçangas de todas as cores. Aprendi com ela a fazer colares e a tecer braceletes.

Lembro das visitas esporádicas à casa dessa avó, em Niterói, que pacientemente abria uma a uma as gavetas de uma cômoda do quarto de costura e me mostrava caixas de sabonete e bombons finos onde ela guardava fitas de cetim e gurgurão perfeitamente enroladas e arrumadas. Caixas com botões e outros aviamentos, meticulosamente organizadas, enfileiradas nas gavetas que recendiam aos perfumes dos já inexistentes sabonetes causavam um grande fascínio. Um dia, anos mais tarde, com certa solenidade, numa daquelas visitas herdei algumas daquelas caixas, histórias e objetos que pertenceram ao bisavô, à bisavó, à tia avó, ao avô e à própria avó e que haviam sido cuidadosamente preservados a espera de um novo destino. Tomei posse daqueles tesouros, me sentindo especial pois, entre tantos primos, fui eu a escolhida. Não me sentia dona daquelas coisas, mas uma espécie de tutora ou curadora de uma memória que mais cedo ou mais tarde vai se esvaindo e da qual restam fragmentos que podem ir parar no fundo de outras gavetas ou, perdendo a função ganham destino diverso ao que fora projetado. O castão de prata da bengala que sustentou o peso dos passos de meu bisavô pelas calçadas de uma cidade distante, repousa imóvel numa mesa de mármore num canto da sala.

A família inteira acabou me escolhendo para herdeira de seus mais absurdos tesouros, que fui acumulando com um misto de prazer e orgulho, junto com pedras e conchas das praias por onde andei. Os amigos começaram a colaborar e quando dei por mim já colecionava postais, bilhetes, cartas. Também latas interessantes e caixinhas, miudezas.

Tudo isso eu guardava em outras caixas maiores, arrumadas como peças de um gigantesco quebra-cabeças, empilhadas milimetricamente dentro do armário. Garrafas com formas e cores interessantes se acumulavam numa prateleira do meu quarto. Material de desenho; lanternas e lamparinas, chaleiras de ferro e metal. Todas aquelas coisas guardei. Depois vieram as ferramentas. Um dia, serrei alguns caramujos ao meio e comecei a abrir as gavetas, as caixas. Passou algum tempo e então novamente abrindo as mesmas caixas, os objetos se mostrando de um outro modo ganharam significado diverso e agora se apresentam em outros suportes, tendo nova função. Tendo o privilégio de compartilhar com eles minha vida, um dia também eu terei ido embora. Também serei talvez uma bisavó de quem já não lembram bem o nome. Serei fragmento de memória, um nome sem rosto, algumas fotos desbotadas perdidas em outras gavetas, se restar algum futuro e memória.

Abrindo os baús e as caixas, exponho agora as entranhas, sutilezas, algumas lutas e muitas histórias. As histórias são muitas. Quem quiser, que monte a sua.

Texto da exposição Coleção de Coleções, in www.christiannerothier.com


Rio de Janeiro, agosto de 2001

ANDANÇAS

Tenho andado um bocado por esse "mundão véio sem porteira", com uma maleta de ferramentas de um lado, um balaio de livros do outro. Olhos atentos nas ruas, feiras e mercados desse Brasil, me ajudam a garimpar artesãos e seus brinquedos incríveis. Anos de estrada me deram a certeza de que brincadeira é coisa muito séria e que fazer brinquedos é uma grande viagem.

Foi lá pelo finzinho dos anos 80 que comecei a pensar na oficina de brinquedos. Na verdade, eu queria mudar de rumo, depois de 11 anos construindo e restaurando maquetes navais. Toda aquela experiência com ferramentas e madeiras não podia se perder. Mas, o que fazer? Por incrível que possa parecer, foi sentada dentro de um ônibus parado num sinal, olhando uma chave gigante que girava sobre a tabuleta - Chaves na Hora - que a idéia "explodiu" em minha cabeça: Brinquedos! Vou fazer brinquedos!! Naquele instante, mágico, uma sensação incrível tomou conta de mim.

Aos poucos fui descobrindo revistas e livros sobre brinquedos de madeira. Ao mesmo tempo outra idéia foi tomando corpo: promover oficinas de brinquedos para crianças. Porque não? Montei um programa e fui conversar com o pessoal da Criarte - uma escola de arte no Humaitá onde anos antes eu tinha feito um curso. Álvaro Ottoni e Ângela Macedo me receberam de portas e corações abertos. Me deram uma sala e lá montei minha primeira oficina. Junto com Claudia Santos, fizemos um esquema de divulgação, que me levou ao programa Sem Censura na TVE.

Após a entrevista, uma surpresa: Marina Quintanilha Martinez, minha professora de literatura infantil no Ciae da Escolinha de Arte do Brasil assistiu e me ligou com um convite para conhecer sua Biblioteca Infantil Manoel Lino Costa, no Centro do Rio. Reencontrar a Marina seria ótimo, mas o que eu poderia fazer numa biblioteca? Vieram as lembranças das bibliotecas da minha vida. A do colégio de freiras, onde era preciso entrar em silêncio, com as mãos para trás, sentar no lugar marcado e folhear o livro que já estava sobre a mesa. A do ginásio, onde o inspetor vigiava escondido entre as prateleiras. A vontade de sair correndo dali era irresistível! Assim me preparei para visitar a BIMLIC.

O endereço também não era dos mais convidativos. Uma sala num dispensário de freiras na Rua Mem de Sá, área bastante degradada da cidade. Mas foi abrir a porta pra mergulhar de cabeça num lugar mágico e especial, que só uma pessoa como a Marina poderia ter inventado. Era um Espaço Vivo, com livros, crianças, idéias e pessoas sérias e muito envolvidas com o que faziam. Foi um caso de amor à primeira vista. Saí de lá empolgada e na semana seguinte comecei a trabalhar. Fui conhecendo as crianças, levando livros pra casa. Abrimos inscrições para a Oficina de Brinquedos, a princípio uma tarde por semana durante dois meses. Quem faltasse duas vezes seguidas, perdia a vez, pois havia uma grande fila de espera. Foi uma das experiências mais marcantes de minha vida.

Robson, Alex, Diogo, Mark, Ednilson, Wendel, Leidiane, Rafael, Ulisses, Vinícius, Andreza, Marcelo, Fabinho, Paulo e tantos outros! Juntos montamos a oficina, que, ao longo de dois anos produziu brinquedos maravilhosos. Relendo os diários de bordo daquela época, me surpreendo com a lembrança do primeiro dia da oficina, quando conversamos sobre lixo, sucata, desperdício e partimos pra organização do material. Ficou registrada a grande dificuldade das crianças pra simplesmente forrar com papel colorido as caixas de papelão! Com o tempo eles foram dominando tesoura e régua, além de serrote, alicate, martelo, furadeira. Tínhamos nossa própria seção de livros, que no início eram bastante consultados, servindo de ponto de partida. Alguns projetos da biblioteca - Mitologia: O Labirinto de Creta, Contos de fadas: Castelos - acabaram se tornando projetos de longo curso da Oficina. O inverso também ocorreu: a partir da história A Casinha, contada por Helena Jacobina e da idéia de fazer maquetes, surgiu A Lapa vista pelas crianças - um projeto de ecologia urbana, que envolveu todos nós durante alguns meses, produzindo um trabalho muito bom, registrado em vídeo por Paula Saldanha e Roberto Werneck e apresentado no Museu do Telefone.

Em 92, encerrado o contrato de comodato com a instituição, a Biblioteca fechou suas portas. Durante outros dois anos tentamos, em vão, encontrar novo espaço para ela. Hoje o acervo de uns 5.000 livros está em boas mãos, no Sítio Santa Clara. De lá pra cá, muitas águas rolaram, muitas oficinas aconteceram, para crianças e adultos, em instituições de ensino formal e informal, no Rio de Janeiro e em outros estados. Mas é com especial emoção e carinho que penso naquele tempo, onde tanto aprendi com aquelas crianças. Foi uma Escola e tanto, uma "plataforma de vôo", como diz Marina. Até hoje somos parceiras em projetos de arte e leitura, além de comadres. Minha filha Lara, hoje com 6 anos, não poderia ter melhor madrinha!



Setembro de 2001

Texto da exposição Galeria de Brinquedos Populares
A MÁGICA


Sempre acreditei na "mágica", na capacidade de interferir com nossa vontade e desejo e fazer acontecer o que me acostumei a chamar de "milagres", a materialização de objetos a partir de um desejo profundo, sincero e "desprendido". Uma boa imagem é a do trecho da música "era só jogar a rede e puxar, era só jogar a rede e puxar..."
Tenho inúmeros exemplos de coisas nessa linha:

Com 13, 14 anos, num momento de crise na família, meu pai desempregado, sem dinheiro nem perspectivas, prestações do apartamento vencendo, recolhemos todo o dinheiro que havia em casa - algumas moedas que davam exatamente para duas passagens de ônibus - e a família decidiu que eu iria usa-las para ir para a escola. Saí de casa e ao chegar na rampa do edifício, um tanto desolada aquela hora da manhã, vejo caindo na minha frente, em "câmera lenta", rodopiando levemente, uma nota de 100. Aquela nota avermelhada, a de maior valor naquele tempo. Veio caindo suavemente e pousou sobre meus pés e meu olhar perplexo, que imediatamente se dirigiu para o alto, buscando ver braços acenando em alguma janela daquele prédio de 20 andares, aquela torre da Gastão Bahiana. Tudo que vi foi o céu azul, um claro azul de um dia começando. Ninguém, viva alma!
Agarrei aquela nota e com o coração disparado tomei o elevador até a portaria e o outro, que demorou uma eternidade até chegar ao 19º andar. Esmurrei a porta e ninguém poderia imaginar o acontecido atrás dela, nós três pulando abraçados, o almoço garantido por alguns dias, uma festa.

Eu costumava fazer meditação em meu quarto, naquele 19º andar no Corte do Cantagalo, em Copacabana. De pernas cruzadas, tentava não pensar em nada enquanto repetia um mantra e esperava que os pensamentos indesejáveis, como nuvens, chegassem e partissem. Lá pelas tantas, me veio a vontade de saber os filmes em cartaz no cinema. Como por encanto, uma folha de jornal, pra ser bem específica, a página de cinema do Caderno B do Jornal do Brasil entrou voando pela janela, como um imenso pássaro batendo suas asas e caiu na minha frente. Meninos, eu vi! Parece mentira, não é? Pois é, mas não é não...

Tem mais! Eu estava fazendo uns caleidoscópios para a criançada de uma biblioteca infantil onde eu orientava uma oficina de brinquedos. Precisava de réguas de espelho que coubessem dentro dos tubos de papelão que nós já tínhamos. Fui numa vidraçaria, mas ficava caro e a idéia era gastar o mínimo, de preferência, nada. La ia eu andando pela Rua Miguel Lemos pensando nos espelhos, quando me deparo com uma pilha de réguas de espelho junto a uma árvore, na frente de uma pequena galeria onde havia o Teatro Brigitte Blair e uma boite no subsolo, que, em reforma, estava trocando o revestimento espelhado das colunas! Meus espelhos estavam junto com alguns sacos de entulho. Foi só me abaixar, pegar e usar. Não precisou nem um corte!

E ainda não acabou! Sou do tempo em que os computadores da PUC RJ, onde eu estudava, eram alimentados com dados em cartões perfurados por um digitador. Eram retângulos de cartão que ficavam cheios de furos igualmente retangulares. Depois de utilizados, eram descartados. Com essa minha mania de transformar tudo e fazer coisas, andei fazendo luminárias incríveis que lembravam muito os lustres árabes, deixando passar a luz pelos orifícios vazados, dando uma luz muito agradável e suave no ambiente.  Anos depois, estudando escultura no Parque Lage, lembrei daqueles cartões e fiquei imaginando onde consegui-los depois de tantos anos, numa era onde os computadores de outra geração não usavam mais os tais cartões.
Pois bem, saio de casa para ir ao supermercado, numa ensolarada manhã de meio de semana. Ao voltar, com as sacolas nas mãos, me deparo com a Rua Miguel Lemos, no trecho entre a R. Barata Ribeiro e a Praça Eugênio Jardim coalhada, literalmente coalhada de cartões de computador. As duas calçadas e o asfalto. Montanhas de cartões, pilhas deles por todos os lados. Ninguém soube me explicar como aquilo aconteceu. Foi só me abaixar, pegar aqueles bolos de cartões e levar pra casa. "Era só jogar a rede e puxar, era só jogar a rede e puxar..."

Outra vez foi a nossa árvore, como costumávamos chamá-la, que pegou fogo. Ela ficava no alto do morro defronte ao nosso prédio, e aquela árvore, a única que havia sobrado, ficava quase na altura da nossa janela. Era linda, talvez por ser única. Uma Figueira Brava. Um dia a vimos em chamas. O céu da tarde estava claro, límpido, sem nuvens, mas ficamos, minha mãe e eu na janela, chamando a chuva. Nossa árvore não podia morrer. Ao anoitecer desabou um pé d'água que durou o tempo necessário para apagar o fogo. Nossa árvore sobreviveu chamuscada, mas tempos depois brotou e se encheu de novas folhas. Até o próximo fogo, que dessa vez a levou. Não estávamos em casa...

Uma noite, vi a lua cheia saindo do mar. Um espetáculo, uma cena deslumbrante. (De minha janela eu via o mar por cima de Copacabana, o mar, o Pão de Açúcar e algumas praias de Niterói, do outro lado da baía de Guanabara. Era muito alto o meu "poleiro" no morro do Cantagalo.)
No mar aquele rastro de prata cintilava e um veleiro deslizava sua paz. As luzes da cidade tremeluziam e pensei com meus botões que se as luzes se apagassem seria o máximo. E o que aconteceu? Copacabana ficou às escuras, breu total por uma meia hora, o tempo de a lua subir e do barquinho desaparecer no horizonte.

Um belo dia fomos nós três à praia, com a idéia de dar um mergulho e voltar logo. Não levamos documento, dinheiro, nada. A praia estava tão gostosa que fomos ficando. Pegamos uma trilha no morro do canto da praia do Peró e lá pelas tantas, a fome apertou. Pensei, puxa, podia ter trazido uma grana pra comer alguma coisa... Não andei nem um metro sobre as pedras e me deparei com uma linda nota de R$5,00, esticadinha na minha frente e ninguém nas proximidades. Chegamos novamente à praia e logo passou um vendedor de empadas , com as três últimas empadas em sua caixa! E deu pra segurar a fome até chegar em casa.

Não é só isso não... Tem muito mais. Algumas coisas menos significantes, nem tão impressionantes, mas suficientes pra me mostrar que isso é possível, que o nosso desejo é capaz de materializar a coisa desejada. Eu não sabia como fazer isso, como controlar, mas tinha provas mais do que concretas de que, em alguns momentos a "mágica" acontece. É pensar numa pessoa que a gente não vê há muito tempo e encontrar com ela na rua e outras coisas por aí.
Portanto, sou dessas pessoas que não pode dizer que "dinheiro não cai do céu", pelo contrário, cai sim, mas não é sempre. E a gente não pode estar desesperado, tem que estar tranqüilo e lançar o desejo no universo. De alguma forma, a sincronicidade acontece e o desejo e o objeto desejado se encontram. Agora eu aprendi que existe uma lei, a Lei da Atração que explica tudo isso. É um pouco como a Gravidade, que a gente não vê mas que puxa tudo pra baixo ou a eletricidade, que não precisa explicação, só saber como usar.